Sobre ela...

Acho que foi Veríssimo quem disse que: "um homem fazendo a barba na frente do espelho está num momento crucial da sua existência". E assim eu encaro minha imagem enquanto seguro a gilete, pensando sobre as opções. A barba não é apenas um amontoado de pelo que esconde parte do meu rosto... ela é parte de mim. E é também um ritual de passagem: quando um garoto apresenta seus primeiros pelos, mostra ao mundo que está se tornando um adulto. E isso fica implícito em todos os gestos e todas as escolhas que ele fizer depois.
Perdido nesses pensamentos, me lembro de quando reparei nEla pela primeira vez: estávamos em uma festa e Ela transpirava liberdade, e quando eu me aproximei ela voou pra longe de mim. E me sorriu. E cada vez que Ela fugia Ela me sorria ainda mais. Me encantei. Tão menina, tão mulher... E eu apenas eu. Quando me aproximei no fim da noite, trocamos alguns passos pela pista e eu descobri que era com Ela que eu queria dançar pra sempre. Mas Ela só me sorriu, e sem corresponder ao meu desejo, se despediu me chamando de “menino”, com quem diz que eu ainda tinha muito para aprender e viver. Mas eu queria viver com Ela... Depois daquele dia, deixei a barba crescer.
E essa barba não é um monte de pelos que eu carrego no rosto... é uma parte de mim. Como que para mostrar pra Ela que eu não sou mais tão menino, que eu posso ser um homem pra Ela também. Que Ela pode aprender comigo tanto quanto Ela, mesmo sem saber, me ensinou. E foi quando Ela voou pra perto de mim.
E olhou nos meus olhos, acariciou meu rosto e meu corpo, se aninhou nos meus braços e dormiu... Parecia um passarinho quando encontra um ninho pra pousar. Ela pousou em mim.

Ela ficou e a barba ficou com Ela, pra Ela. Acho que Ela nem sabe, mas essa barba só cresceu aqui porque Ela mesma só fazia crescer dentro de mim; porque algo nEla me pedia, mesmo sem voz, para que eu a deixasse lá, para que eu não fosse só um menino, mas um homem com quem Ela gostava de estar. E eu quis crescer e quis aprender com Ela. E quis ensinar-lhe tantas coisas também...!
Vez ou outra eu acordava de madrugada e encontrava os cabelos dEla caídos pelo meu peito, sua respiração tranquila como de quem encontra um porto seguro. E meu coração parecia querer explodir, explodir na calmaria que Ela representava e também no amor e na liberdade que Ela transpirava quando estava em cima de mim.
Mas Ela é um passarinho, e meu ninho talvez não fosse tão seguro assim... Eu ainda sou um menino. E Ela voou de novo, sempre sorrindo, pra longe de mim.
Como bem disse Veríssimo, fazer a barba na frente do espelho nos traz algumas reflexões sobre a existência. A minha, sem Ela, ainda é um pouco dolorosa de se encarar.  É como se faltasse algo em mim. E faltava Ela. E era Ela quem me doía. E assim eu encaro minha imagem enquanto seguro a gilete, pensando em como eu posso atingi-la, e dessa vez me sinto mais seguro quanto às opções. Resolvo retirar esses pelos que me cobrem parcialmente o rosto. Mas é dEla que eu quero me livrar.

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