Tic Tac Tédio

Tic Tac.
A sala de espera vazia, as janelas ainda fechadas, e nem sinto o cheiro de café no ar. O relógio perto do bebedouro sumiu. Bato as mãos no bolso e constato ter esquecido o celular. Suspiro. Bebo um copo d'água, ando pela saleta de 6m², mas sento assim que bato a canela numa das cadeiras vazias. Me irrito. Sento e percebo estar sem bolsa. Percebo que pela primeira vez deixei em casa tanto o livro quanto o computador, e justo no dia que esqueci o celular. Constato também que não tenho como ver o tempo passar, e que não tenho o que fazer até que o tempo passe.
Tic Tac.
Vou até minha sala, e lá fico (por quanto tempo?), com a luz apagada e a porta entreaberta, adaptando-me com a disposição das poltronas no escuro. Se esta fosse só a minha sala, com certeza trocaria essas poltronas que sequer no escuro parecem aconchegantes. Acendo a luz: há dois relógios aqui.
Tic Tac.
Tic Tac.
Cada um marcando um horário, com alguns minutos de diferença. Bato as mãos no bolso do jaleco e constato que não tenho um celular ou relógio para conferir. Ainda não tenho o que fazer com o tempo, mas pelo menos agora ele começou a passar.
Debruço na mesa. Rabisco a lateral da folha, escrevo uma canção de que me recordei neste instante. Suspiro. Que música triste. Pelo menos me fez perceber o tempo passar. Pena que não foi necessariamente este o tempo que passou. Quanto tempo faz desde o nosso último instante? Guardo a folha na pasta. Mexo nos anéis e verifico o esmalte das unhas, num segundo que pareceu uma eternidade. O ponteiro parece nem ter se mexido.
Vejo corpos no corredor, vozes distantes, uma risada. Penso em te mandar um "Olá", mas bato as mãos no bolso e constato que esqueci o celular. Só não pense que esqueci você. Meu estômago ronca de fome e me traz de volta à essa realidade. Volto a perceber o som do relógio e percebo que é quase hora de ir, que muitos minutos se passaram enquanto eu pensava em você.
Que grande perda de tempo.
Tic Tac.

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