Isso é sobre ficar ♥

Me prende no teu abraço e me beija até eu esquecer de ir embora. Eu sempre digo que preciso ir e você, com um só beijo, me convence a ficar. E sempre rompe a barreira de bobagens que eu falo, dizendo que é melhor a gente não se envolver.  Você sempre passa dos limites. E quando percebo já estou entregue aos seus braços, torcendo para que você não me solte mais. Eu fico.

Seu beijo me acalma, e eu sempre sorrio boba quando nossos lábios se separam. Ou quando vejo seu olhar bobo me comendo com os olhos. Você me abraça e me pede para ficar, e eu não sei como poderia dizer “não” pra você. Eu sempre fico.

E a gente conversa, às vezes até em silêncio, e a paz que você me traz me faz relaxar. Eu sempre fico vulnerável nos teus braços. Justo eu, que quero sempre o controle, a liberdade, a distância... de você, não consigo me afastar. Eu simplesmente fico.

A madrugada passa e eu estou ali, dormindo segura nos seus braços. Acho que te desperto com meus movimentos inquietos, e quando abro os olhos, seus olhos estão abertos me encarando. Já te falei o quanto gosto dos seus olhos? Eu sempre acho que eles estão sorrindo para mim, me pedindo pra ficar. E eu reclamo que já passou do horário, mas fico.

Me invade com a tua paz, com a tua liberdade, com o teu carinho e o teu cuidado. Me prende nos teus braços até eu dormir e esquecer de ir embora. Ou dorme nos meus braços e, sonolento, diz aquelas frases desconexas que me fazem rir. Mesmo com sono, você me desperta tantas coisas boas que eu nem posso descrever, pra não correr o risco de diminuí-las. Você é lindo. E desperta em mim o que existe de mais bonito também. Eu não quero ter que ir embora. Eu sempre reluto, mas no fundo nós dois sabemos que eu quero ficar.

O que significa sentir sua falta.

     Oi. Eu sei que não estamos nos vendo (há tanto tempo) e que eu prometi não mais te procurar, mas pensei em você hoje cedo, e queria dizer que sinto sua falta. Queria que você soubesse que não é como se eu me arrependesse do que aconteceu, ou como se quisesse ter acabado diferente, muito menos que eu gostaria de te ver. Quando eu digo que sinto sua falta, é simplesmente porque sinto sua falta, e é isso que significa.
      Você, uma pessoa que eu julgava conhecer tão bem, me parece mais uma pessoa estranha. E isso significa que (há muito tempo) eu já consigo passar alguns dias sem pensar em você. É como se (por algum tempo), eu simplesmente te esquecesse. E isso parece tão fácil. E parece tão bom.
     Mas aí eu te lembro de novo. Acho uma carta, uma foto, uma música que eu tenho certeza que você acharia ruim e mais tarde me pediria para escutar. E então eu volto a sentir o peso de tudo o que foi perdido.
     Não é como se eu me arrependesse, como se eu quisesse voltar (no tempo) e te pedir para ficar. Eu não me arrependo, e entendo que tivemos muitas razões para terminar. Nós nunca precisamos de razão para nada. E você ainda reclama de que eu quero ter sempre a razão. Mas, no começo, as coisas simplesmente aconteceram, até a razão nos encontrar: nós não tínhamos interesses em comum, não gostávamos das mesmas músicas, da mesma ciência e nem das mesmas pessoas. Não possuímos os mesmos objetivos, e parecíamos estar andando sozinhos. Na verdade, não havia razão alguma para que nos amássemos, mas ainda assim (por muito tempo) insistimos que sim.
     Mas quando as razões vieram, vieram em bando - essas covardes. E até hoje as razões não cansam de chegar. Ao mesmo tempo, isso é bom. Não é como se eu precisasse te dizer adeus, mas também não é como se eu quisesse te ver voltar.
     Eu só queria dizer que sinto sua falta. Como senti falta de outros, antes de você; e sentirei falta mesmo depois que outros vierem. As pessoas nunca se vão por completo. E você continua aqui, embora eu ainda te esqueça vez ou outra. Há sempre algo ausente que atormenta. E hoje você é o que existe de mais ausente em mim. 
     Eu sinto sua falta. E não porque quero voltar atrás ou mudar o que eu fiz. Apenas porque sei que somos tão diferentes, desinteressantes, e com objetivos tão distintos, que acho até engraçado algum dia termos conseguido nos apaixonar.
     Mas não quero me delongar (por tanto tempo). Só quero dizer que espero que você esteja bem, espero que siga seu caminho, que conheça alguém... E ao mesmo tempo, espero que se lembre de mim, que se lembre da nossa falta de razão, das nossas promessas, das nossas ideias. E espero que não mude de ideia tão rápido.
     Espero que sinta falta de mim, embora, deste momento em diante, eu veja razões para não sentir falta de você.

Tic Tac Tédio

Tic Tac.
A sala de espera vazia, as janelas ainda fechadas, e nem sinto o cheiro de café no ar. O relógio perto do bebedouro sumiu. Bato as mãos no bolso e constato ter esquecido o celular. Suspiro. Bebo um copo d'água, ando pela saleta de 6m², mas sento assim que bato a canela numa das cadeiras vazias. Me irrito. Sento e percebo estar sem bolsa. Percebo que pela primeira vez deixei em casa tanto o livro quanto o computador, e justo no dia que esqueci o celular. Constato também que não tenho como ver o tempo passar, e que não tenho o que fazer até que o tempo passe.
Tic Tac.
Vou até minha sala, e lá fico (por quanto tempo?), com a luz apagada e a porta entreaberta, adaptando-me com a disposição das poltronas no escuro. Se esta fosse só a minha sala, com certeza trocaria essas poltronas que sequer no escuro parecem aconchegantes. Acendo a luz: há dois relógios aqui.
Tic Tac.
Tic Tac.
Cada um marcando um horário, com alguns minutos de diferença. Bato as mãos no bolso do jaleco e constato que não tenho um celular ou relógio para conferir. Ainda não tenho o que fazer com o tempo, mas pelo menos agora ele começou a passar.
Debruço na mesa. Rabisco a lateral da folha, escrevo uma canção de que me recordei neste instante. Suspiro. Que música triste. Pelo menos me fez perceber o tempo passar. Pena que não foi necessariamente este o tempo que passou. Quanto tempo faz desde o nosso último instante? Guardo a folha na pasta. Mexo nos anéis e verifico o esmalte das unhas, num segundo que pareceu uma eternidade. O ponteiro parece nem ter se mexido.
Vejo corpos no corredor, vozes distantes, uma risada. Penso em te mandar um "Olá", mas bato as mãos no bolso e constato que esqueci o celular. Só não pense que esqueci você. Meu estômago ronca de fome e me traz de volta à essa realidade. Volto a perceber o som do relógio e percebo que é quase hora de ir, que muitos minutos se passaram enquanto eu pensava em você.
Que grande perda de tempo.
Tic Tac.

Desencontro.

Parece que ele sabe... Às vezes acho que ele pode mesmo sentir. E às vezes até acho que ele sente o mesmo que eu. E - malditas asas queimadas! - às vezes eu só queria poder voar para longe dele. Mas não. Autocontrole nunca foi uma característica a qual me dediquei.
- Oi - ele disse com sua voz baixa.
- Oi - me limitei a responder.
- Só liguei para saber se você estava bem...
- Eu estou. - e fugia das respostas quase tanto quanto fugia do contato. E não lhe faço perguntas. Sempre tenho medo das respostas, embora tudo o que eu quisesse era tê-lo deitado no meu divã, para então lhe arrancar todas as verdades.
- Ah, que bom. Queria dizer também que eu estava com saudades...
- Você sempre está, - respondi. - mas acho que isso nunca melhorou as coisas entre nós.
- Pare de me tratar assim... - sua voz era reticente e triste. De uns tempos para cá, sua voz sempre me soava triste. Mas talvez fosse só o meu coração meio fraco demais.
- Pararei - eu respondi. - É só você parar de me ligar. Ou ao menos tenha a decência de admitir o que você quer. Você quer voltar?
- Não. Eu quero conversar. Quero sentar no seu portão, segurar sua mão e te apertar forte. E te soltar apenas quando a realidade nos obrigar a acordar. - ele riu, triste. - Vamos sair?
Suspirei: Não posso...
- Não pode... ou não quer?
- Os dois.
- Tudo bem. Me desculpe. Não vou mais te ligar.
- Eu sei.
- Então... até semana que vem. - ele fala, triste. E eu solto uma risada triste ao ouvir a velha piada.
- Até. Se cuide. E volte para quem sabe devolver as minhas asas.

Medindo palavras

"Você me magoa. Sempre diz o que quer, como se não soubesse a dimensão que as palavras têm. Meça-as melhor." - foi o que ele lhe dissera antes de partir. Ela coçou o cabelo, colocou uma mecha atrás da orelha, deitou um pouco a cabeça... Fez essas coisas que fazia quando não entendia algo que aparentemente ela deveria entender por se tratar de algo simples.
A lagarta soprou a fumaça, tomou fôlego. O chapeleiro lhe trouxe uma nova xícara de café. Ali era seu país, seu mundo. Podia ser parecido com diversos outros países e mundos, mas ela não gostava de pensar nesses detalhes. Aquele era seu Lugar Nenhum. Mas mesmo assim ainda haviam coisas que ela não podia (ou não queria) entender.
Ela coçou a cabeça. "Meça suas palavras", ele dissera. E então tudo se tornou mais claro e fácil: ela pensou nas palavras, e todas elas ganharam vida a sua frente. Então a menina as mediu, uma a uma, e lhes deu atenção, e acalentou-as, contou suas letras, sílabas e significados... E sorriu. As palavras estavam medidas, e agora faziam parte dela.
Uma a uma, voltaram para sua cabeça. e o seu mundo se tornou muito mais acolhedor do que jamais fora. Era na verdade um lugar nenhum, mas também era um país de maravilhas, inteiro formado por palavras.

Saudade.

A chuva caía fina e o céu estava claro, mesmo sendo madrugada. Eu sabia que, uma hora ou outra, ela apareceria. Ela gosta de chuva, gosta de céu claro, gosta de madrugada. E ela gosta de mim. Bom, eu suponho que goste. Se não ela já teria ido embora.
Eu a irrito, a desprezo, ela às vezes ameaça me deixar, mas nunca se vai de verdade. Às vezes ela só espera a chuva fina de uma madrugada para aparecer. Ela chega sem avisar, sempre ao menor sinal de que talvez eu esteja sentindo sua falta. Eu nunca sei se estou mesmo sentindo sua falta. Ela reclama que eu torno tudo tão confuso... mas ela sempre volta.
E a rotina é sempre a mesma: ela vem sorrateira, como se eu não fosse perceber sua presença... e enche todo o quarto, enche toda a vida. Ela sobe na cama, se aninha ao meu lado, reclama que tenho sido sempre tão frio, que talvez no passado fosse melhor. Ela puxa a coberta e me provoca, fecha os olhos, sorri sabendo que meu corpo se arrepia com a brisa gelada que invade a casa pela janela. Ela sorri. E fica linda sorrindo. Então eu esqueço que deveria manda-la embora. Eu sempre me esqueço.
Perdido, admiro seu sorriso e então me lembro de fechar os olhos. Ela parece invadir minha mente, me pede para voltar. Puxo a coberta, a descubro, me afasto dela. Abro os olhos: ela ainda sorri, me provocando. Sua presença me tira o ar... Eu sufoco. Uma lágrima cai. Eu não a queria aqui.
Eu a empurro para mais longe de mim. Ela me aperta, me puxa, me machuca. Suas unhas sempre afiadas me arranham, me sangram, me matam todos os dias. Ela me morde. E a cada lágrima que cai de meus olhos, o sorriso dela fica maior. Ela se alimenta da minha dor. E ela dói.
Ela sorri. O sangue, as feridas, as memórias... Tudo se esvai de mim. Eu gostaria de resistir, gostaria de mandá-la embora para sempre. Eu sei que, se eu pedir, ela me ouvirá. Mas no fundo eu não quero que ela se vá. Ela foi tudo o que restou.

Chamada não atendida

Ela respirou fundo, limpou a lágrima teimosa que insistia em cair, e resolveu atender. O passo mais difícil era apertar o botão verde do celular e falar Alô. Todo o resto era fácil, como sempre fora.
Ela diria um "Alô" mais desanimado do que gostaria, e ele sentiria sua preocupação mesmo do outro lado da linha. E ela riria, sem graça, e diria que ele não precisava se preocupar, que eram só bobagens daquelas que só ela conseguiria inventar para viver. Ele diria que gostaria de vê-la, e que gostaria de animá-la com alguma conversa sem sentido, como se tivesse pressentido que algo estava fora do lugar. "Seu lugar é comigo", ele diria sem ela precisar perguntar, e ela se sentiria a pessoa mais especial do mundo. "Meu lugar é na madrugada", ela responderia, querendo completar que, mesmo assim, seria bom ter a companhia dele de vez em quando.
Mas depois pensaria no quanto tudo aquilo era errado, e no quanto as coisas entre os dois nunca aconteciam do jeito certo. Mas, pensando bem, existe mesmo um jeito certo para isso? Existe o certo e o errado pra gostar de alguém? Pra dizer que se preocupa? Porque ele sempre fora o cara errado, ela não tinha dúvidas. Mas permitiu que ela vivesse sentimentos tão exatos, que ela nunca seria capaz de rejeitar-lhe um pouco de afeto, mesmo no meio de uma madrugada triste, mesmo que todo o universo conspirasse contra isso. Eles sempre gostaram de ir contra o universo. Só assim puderam viver e amar tão intensamente.
Mas agora havia novas coisas e novas pessoas e novos relacionamentos a se considerar. Apertar o botão verde e falar "Alô" foi se tornando mais difícil, mesmo que todo o resto pudesse ser fácil da maneira que só ele seria capaz de ser.
Ela respirou fundo novamente e, se libertando dos pensamentos, pegou o celular para atendê-lo. Mas a tela apagou e o celular parou de tocar.
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