Abrigo
Isso não é sobre você. Há tempos que não pensava em te escrever, embora ainda pense no seu rosto, nos seus gostos, e faça suposições sobre a pessoa que agora você se tornou. Mas a vida real urgia e eu precisava atender aos seus chamados; por isso você foi ficando mais como nostalgia do que como lembrança. Gosto de pensar que você é um espaço mental: um amontoado de histórias, risos e amores que eu sei que já morreram mas que nem por isso deixaram de existir. E é pra você que eu corro quando a vida me sufoca ou me machuca. É em você que eu me protejo do mundo, pra onde eu fujo e me escondo até poder me reorganizar. E volto mais forte e preparada pra lidar com o que aparecer - essa é a mais valiosa habilidade entre todas as que você me ensinou. Nunca são grandes dificuldades. Você sabe, talvez melhor do que qualquer outro, que eu sou muito suscetível à dor, que me machuco e fico roxa com facilidade, e que, na vida toda, nunca aprendi a sofrer de verdade. Posso contar nos dedos de uma única mão os grandes sofrimentos - dois lutos, duas decepções. Mas você também conhece minha tendência ao drama -- é ela quem mantém, mesmo inconstante, esses escritos. Mas isso não é sobre drama. Também não é sobre você. É sobre mim tentando me refugiar em uma memória, pra dela retirar algum resquício de amor pra continuar vivendo. O chamado do real não me agrada e me leva a responsabilidades que, por hora, eu não quero assumir. E eu fujo até você, que é o abrigo de ilusões e de expectativas fantasiosas mais útil possível para me esconder de mim. Não aprendi a crescer.
Organize-se.
Desde
que aprendi a escrever, gosto de manter agendas e diários onde posso anotar
meus “compromissos” e recordações. Eles me organizam, não deixam eu me perder
ou esquecer. Por causa deles, consigo manter a vida em um tipo de organização.
E
transfiro isso pra toda a minha vida: arrumo as roupas por cores, e com elas
organizo meus pensamentos por sentimento e ordem de importância. Azul para os
dias melancólicos, cinza para os dias chuvosos, vermelho pra eu não me esquecer
de sentir saudade. Tiro algumas peças, demonstrando para o mundo que não vou
guardar no guarda-roupa e na vida aquilo que não me serve mais.
Sapatos,
assim como amigos, tenho só alguns – que é pra nenhum deles duvidar da sua
importância e necessidade. Uso até ficar gasto e não abro mão nunca. Desde
adolescente conservo a ideia de que, quanto mais surrado o all star, mais histórias ele carrega e mais confortável ele se
torna.
O
quarto está sempre limpo, a cama arrumada. Exceto quando ELE vem e bagunça tudo.
Aí eu rio, jogo o colchão no chão e deixo tudo no caos até a manhã seguinte. Um
rompante de paixão e desordem... perfeitamente ordenados com tudo o que existe
aqui. O espaço estava arrumado, esperando para recebê-LO, torcendo para que ele
não vá embora tão depressa.
O
universo de fora organiza o universo de dentro, e vice-versa.
E
na sua bagunça, ele se encaixa na minha ordem, e me organiza, e me cativa, e me
reinventa. Jogo fora outras peças de roupa para que ELE tenha mais espaço pra
ficar. Esquece uma camisa aqui, vai. Coincidentemente tem um lugarzinho ali, um
espaço que você tem toda a liberdade pra preencher. Fica um pouquinho. Arrumei
tudo antes de você chegar.
Um
professor uma vez me disse que, quando passamos por um período de mudança (seja
pelo término de namoro, pelo final de alguma fase, o fim do curso, a despedida,
a saída do emprego), a primeira coisa que se deve organizar é o seu quarto. A partir
dele é que se organizam os pensamentos.
Agora.
Não é ciúme, não. Hoje eu tenho você aqui, e amanhã pode ser que não... mas ainda assim não existe medo algum de te ver ir embora. Não é como se isso desvalorizasse o que sinto ou diminuísse o meu carinho. É só que eu te gosto tanto, e te quero tanto bem, que não me preocupo se o teu bem não me quiser aqui. Se precisar, eu vou. Só promete pra mim que só vamos ficar enquanto tivermos vontade. Você tem toda a liberdade para ser feliz - ao meu lado, sozinho, ou ao lado de outro alguém.
Não tem ciúme, não. Porque eu sei que esse minuto pode ser o último, embora eu não queira que seja, e porque eu prefiro passar esse minuto te beijando do que me preocupando com aquela menina que, nos meus pensamentos mais paranoicos, não para de olhar pra você. É comigo que você está agora, e é só agora que importa pra mim.
Amanhã a gente vê depois.
Não é ciúme, não. Só é uma pena você ficar chateado pensando que sou eu que não me importo. Mas eu me importo, sim. Eu me importo e vejo tudo o que acontece. E me importo muito, porque te quero ainda mais e tenho urgência nesse meu querer. Te quero agora, e não dá tempo de perder tempo pensando em quem falou, mexeu ou perguntou por você.
Não tem ciúme, não. Mas é uma pena que não entendam, que gostem de jogar, de provocar, de falar achando que podem me atingir. Ironia ou não, quem mais tentou te prender só conseguiu te afastar. E quem te deixa partir, é quem você quer conservar. Você acha mesmo que eu preciso me preocupar? Só entenda que, agora, você está aqui e eu também.
Nos outros a gente pensa depois.
Meio sem sentido, eu sei... Mas faz parte do processo de entender que ciúme não é bom, não valida o gostar. Você não é meu, e eu não quero que seja. Te quero livre. Te ouvir contar que alguém te quer, ao contrário de me chatear, me enche de orgulho por saber que, entre todos, você escolheu ficar. É isso o que somos: uma escolha, um agora. Uma pena que os outros não entendam assim, uma pena que só queiram provocar, que não queiram se aproximar e perceber que aqui não tem ciúme, não. Aqui tem um gostar puro, intenso, e muito bonito - que eu poderia dividir com elas (tão bobinhas!), caso me perguntassem porque, entre tantas que tentaram te prender, foi eu que, sem querer, consegui te namorar. Se pensar bem, quem perde são elas, não eu. Eu já estou ganhando, e faz tempo: ganhei você [e já faz bastante tempo], e pretendo continuar assim, colecionando vitórias, sorrisos e cafés na cama - agora, estou muito mais do que satisfeita por ter escolhido dividir minha liberdade com você.
Não tem ciúme, não. Porque eu sei que esse minuto pode ser o último, embora eu não queira que seja, e porque eu prefiro passar esse minuto te beijando do que me preocupando com aquela menina que, nos meus pensamentos mais paranoicos, não para de olhar pra você. É comigo que você está agora, e é só agora que importa pra mim.
Amanhã a gente vê depois.
Não é ciúme, não. Só é uma pena você ficar chateado pensando que sou eu que não me importo. Mas eu me importo, sim. Eu me importo e vejo tudo o que acontece. E me importo muito, porque te quero ainda mais e tenho urgência nesse meu querer. Te quero agora, e não dá tempo de perder tempo pensando em quem falou, mexeu ou perguntou por você.
Não tem ciúme, não. Mas é uma pena que não entendam, que gostem de jogar, de provocar, de falar achando que podem me atingir. Ironia ou não, quem mais tentou te prender só conseguiu te afastar. E quem te deixa partir, é quem você quer conservar. Você acha mesmo que eu preciso me preocupar? Só entenda que, agora, você está aqui e eu também.
Nos outros a gente pensa depois.
Meio sem sentido, eu sei... Mas faz parte do processo de entender que ciúme não é bom, não valida o gostar. Você não é meu, e eu não quero que seja. Te quero livre. Te ouvir contar que alguém te quer, ao contrário de me chatear, me enche de orgulho por saber que, entre todos, você escolheu ficar. É isso o que somos: uma escolha, um agora. Uma pena que os outros não entendam assim, uma pena que só queiram provocar, que não queiram se aproximar e perceber que aqui não tem ciúme, não. Aqui tem um gostar puro, intenso, e muito bonito - que eu poderia dividir com elas (tão bobinhas!), caso me perguntassem porque, entre tantas que tentaram te prender, foi eu que, sem querer, consegui te namorar. Se pensar bem, quem perde são elas, não eu. Eu já estou ganhando, e faz tempo: ganhei você [e já faz bastante tempo], e pretendo continuar assim, colecionando vitórias, sorrisos e cafés na cama - agora, estou muito mais do que satisfeita por ter escolhido dividir minha liberdade com você.
Explicações
Porque muito antes de sermos namorados, éramos amigos.
Porque muito antes de sequer pensarmos em ficar juntos, quando isso nunca nos pareceu uma possibilidade, já dividíamos bons momentos, boas conversas e muitas risadas.
Talvez fosse inevitável.
Talvez fosse uma questão de "bar certo com a pessoa certa".
Eu não sei.
Sei que os bares estavam lá, e que você estava lá também. Sempre.
Mas eu nunca tinha reparado em você. Nunca pensei. Sempre houveram outras pessoas, outros bares, outros lugares, outras coisas a se fazer, sentimentos para sentir, desculpas para dar.
Estávamos lá, mas ao mesmo tempo cada um vivia por si.
Você me contava suas histórias, suas aventuras. Eu ria. Eu contava as minhas histórias, minhas aventuras. Você dormia. E assim seguíamos nas madrugadas, nos congressos, nas viagens, nos estudos. Escrevíamos nossas histórias e nossas aventuras. E a gente vivia.
Mas a partir do momento em que reparei em você, e você em mim, essa era a nossa única possibilidade.
Dizem que quando a gente faz uma escolha, os outros caminhos deixam de existir, porque não é sobre esses caminhos que se cria a história.
A história agora é nossa, e não há outro caminho que não seja o nosso.
Podem falar o que quiserem, podem nos encher de perguntas, podem se intrometer, fazer suposições, falar mal de mim pra você e de você pra mim. Podem dizer que você vai me fazer sofrer, ou que eu não mereço você. Podem especular sobre os dias, os horários, os lugares.
Eles nunca estiverem lá para saber.
E eles nunca estarão aqui pra entender.
Só nós dois estivemos aqui desde o começo, dividindo cada violada universitária, cada crônica sobre relacionamentos, cada sofrimento e drama do dia-a-dia. Dividimos os rolês, os amigos, as histórias. E só nós sabemos o quanto merecemos cada momento bom que construímos - porque se estamos aqui, foi por nosso mérito e esforço, foi porque sempre caminhos juntos, porque nos esforçamos, porque sonhamos os mesmos sonhos, dividimos dores, sorrisos e ambições.
Você é meu de um jeito que nunca achei poder ter alguém.
Eu sou sua de um jeito que nunca imaginei ser de alguém.
De um jeito fluído, natural.
Misturando nossas diferenças, somando nossas semelhanças, dividindo um com o outro as nossas vidas. E todas as nossas alegrias e os nossos sonhos parecem ser apenas a comprovação de que não poderia ser melhor, não poderia ser outra pessoa.
Tinha que ser você.
E tinha que ser agora.
Independente do que os outros falem. Nós temos nossas datas, nossas vidas, nossas experiências e nossas explicações.
E nós temos um ao outro.
Obrigada por todos esses sonhos, e obrigada por ser real.
Porque muito antes de sequer pensarmos em ficar juntos, quando isso nunca nos pareceu uma possibilidade, já dividíamos bons momentos, boas conversas e muitas risadas.
Talvez fosse inevitável.
Talvez fosse uma questão de "bar certo com a pessoa certa".
Eu não sei.
Sei que os bares estavam lá, e que você estava lá também. Sempre.
Mas eu nunca tinha reparado em você. Nunca pensei. Sempre houveram outras pessoas, outros bares, outros lugares, outras coisas a se fazer, sentimentos para sentir, desculpas para dar.
Estávamos lá, mas ao mesmo tempo cada um vivia por si.
Você me contava suas histórias, suas aventuras. Eu ria. Eu contava as minhas histórias, minhas aventuras. Você dormia. E assim seguíamos nas madrugadas, nos congressos, nas viagens, nos estudos. Escrevíamos nossas histórias e nossas aventuras. E a gente vivia.
Mas a partir do momento em que reparei em você, e você em mim, essa era a nossa única possibilidade.
Dizem que quando a gente faz uma escolha, os outros caminhos deixam de existir, porque não é sobre esses caminhos que se cria a história.
A história agora é nossa, e não há outro caminho que não seja o nosso.
Podem falar o que quiserem, podem nos encher de perguntas, podem se intrometer, fazer suposições, falar mal de mim pra você e de você pra mim. Podem dizer que você vai me fazer sofrer, ou que eu não mereço você. Podem especular sobre os dias, os horários, os lugares.
Eles nunca estiverem lá para saber.
E eles nunca estarão aqui pra entender.
Só nós dois estivemos aqui desde o começo, dividindo cada violada universitária, cada crônica sobre relacionamentos, cada sofrimento e drama do dia-a-dia. Dividimos os rolês, os amigos, as histórias. E só nós sabemos o quanto merecemos cada momento bom que construímos - porque se estamos aqui, foi por nosso mérito e esforço, foi porque sempre caminhos juntos, porque nos esforçamos, porque sonhamos os mesmos sonhos, dividimos dores, sorrisos e ambições.
Você é meu de um jeito que nunca achei poder ter alguém.
Eu sou sua de um jeito que nunca imaginei ser de alguém.
De um jeito fluído, natural.
Misturando nossas diferenças, somando nossas semelhanças, dividindo um com o outro as nossas vidas. E todas as nossas alegrias e os nossos sonhos parecem ser apenas a comprovação de que não poderia ser melhor, não poderia ser outra pessoa.
Tinha que ser você.
E tinha que ser agora.
Independente do que os outros falem. Nós temos nossas datas, nossas vidas, nossas experiências e nossas explicações.
E nós temos um ao outro.
Obrigada por todos esses sonhos, e obrigada por ser real.
O começo
Esse
é só o começo. Se o nosso sentimento caminha em dois sentidos, se eu digo que
vejo nos seus olhos a luta constante entre ir e ficar, acho que, por agora, estamos
dando mais ênfase ao permanecer. No fundo a gente sabe: isso tudo é só o começo.
Você veio pra ser o último, veio porque eu estava esperando você. Não vou te
pedir pra prometer, o caminho de dois sentidos está sempre aberto e você tem
toda a liberdade pra ir, voltar, ficar, fugir. Mas te peço uma escolha, e peço
para que, independente do que você decidir, você cumpra até o fim. Nós dois
sabemos que, do nosso jeito, isso já é perfeito. A gente nunca sabe o que quer,
e o não sei parece sempre escolher
por nós – mas acho que, até hoje, não erramos nas poucas coisas que soubemos
escolher. Você é tudo o que eu quero, porque você é intenso e verdadeiro...
divide comigo a sua cama, a mesma porção de batatas, a rotina, o domingo
inteiro. No fundo a gente sabe: pra tudo na vida é preciso apenas vontade.
Desde
o começo você sabia que não tinha como não se apaixonar pelo meu sorriso. Desde
o começo eu sabia que, se te beijasse de volta, não teria como voltar atrás. A
gente estava juntos desde o começo, e depois, e o começo é de novo agora e parece
que vai ser assim até o final. Estamos sempre começando.
Poderíamos
ser só amigos, se tudo o que eu desejasse pela manhã não fosse você, se eu não
tivesse te dado o meu corpo e todos os meus sonhos, se eu não fosse a calma e
você a tempestade, se eu não fosse a ordem e você o caos. Você chegou, bagunçou
tudo, me falou tanto sobre sentimento, sobre frustrações, sobre meu nome nos
seus sonhos e nas suas terapias. Depois disso, falar sobre ser só amigos me pareceu
pequeno demais. Acho que no fundo eu só agradeço aos pequenos gigantes que nos uniram.
Desde
o começo a gente sempre preferiu ficar acordados, sermos os últimos a ir embora,
os últimos a ir dormir... Porque na nossa vida, a realidade parece ser melhor
do que o sonho. E o melhor de tudo é que, na nossa vida, isso é apenas o
começo.
Materializando ideias
Era hora do almoço, mas tive que abandonar meu suculento bife acebolado quando uma ideia meio louca irrompeu a mente. Quem escreve sabe que as ideias precisam ser rapidamente passadas para o papel, sob risco de serem perdidas. As palavras gostam de calar quando precisamos delas, e algumas ideias jamais podem se perder, porque podem cair nas cabeças de outras pessoas.
O Marco sempre me diz, nos corredores da faculdade, que as boas ideias parecem nuvens flutuando por aí, em uma frequência muito específica que poucos podem captar. Por isso, se você sintoniza uma boa frequência, anote, salve-a. Na mente, no HD, no coração, na sensação.
O Will também gosta de falar sobre frequência: nas palestras motivacionais, ele diz que emitimos energia, e que a recebemos na mesma frequência com a qual a enviamos, positiva ou negativa. Todas as coisas nas quais depositamos nossas crenças deixam de ser neutras e passam a ter carga, sentimento.
Talvez você esteja neutro e fique se perguntando onde é que eu estou querendo chegar com tudo isso.
Eu também não sei. O bife esfriou, a comida não está mais na mesa, e, aparentemente, a ideia não está mais na cabeça. Me perdi na introdução do texto. Mas o que não perdi foi a vontade de escrever.
Ando numa boa fase, sabe?!
Achei uma frequência interessante e é ela quem está embalando meus passos.
Os sonhos estão tomando forma, consistência. As palavras, antes perdidas, ganharam corpo e se tornaram contrato. Foram planos, reuniões, parcerias, decisões. Três mãos que assinaram a instituição de um sonho comum. E logo depois, duas mentes que trabalharam na construção de uma mesma ambição. Sonhos que se sonham junto viram realidade.
Mas é preciso dar uma pausa nos sonhos bons. Manter o foco; porque não foi para falar das novas alegrias que eu me sentei aqui. Um pouco de pessimismo nesta xícara, por favor, porque agora eu vou fazer de conta que me chateei.
Ainda é hora do almoço, enganei a fome com café, e o bife antes suculento eu engoli meio a contragosto.
Ontem escrevi sobre fidelidade, contei um caso aleatório qualquer. Vocês ficariam surpresos de saber que a história relatada não tinha elementos reais. Gaiman costuma dizer que qualquer história que retrata a realidade é assim: fictícia do começo ao fim. E hoje abri meu email e havia um comentário dela - anônimo, sem noção. Ela me acusa de falar dela, de contar sua história.
Vibrei de alegria por saber que, magicamente, um elemento da minha imaginação, um personagem criado por mim, ganhou vida e se manifestou. Imagine se todos os meus outros exemplos resolvem se materializar? Se todas as pessoas e todas as relações sobre as quais eu já falei e publiquei, resolvem me escrever? Poderia povoar um mundo inteiro. Mas gostaria que eles me avisassem, para que eu pudesse mudar alguns elementos nas suas trajetórias. No fundo, vivo uma certa frustração: com tantos bons escritores por aí, com tantos bons personagens, porque o universo deu vida justo a minha pior criação? Pesadelos, mesmo sozinhos, podem virar realidade também.
O Marco sempre me diz, nos corredores da faculdade, que as boas ideias parecem nuvens flutuando por aí, em uma frequência muito específica que poucos podem captar. Por isso, se você sintoniza uma boa frequência, anote, salve-a. Na mente, no HD, no coração, na sensação.
O Will também gosta de falar sobre frequência: nas palestras motivacionais, ele diz que emitimos energia, e que a recebemos na mesma frequência com a qual a enviamos, positiva ou negativa. Todas as coisas nas quais depositamos nossas crenças deixam de ser neutras e passam a ter carga, sentimento.
Talvez você esteja neutro e fique se perguntando onde é que eu estou querendo chegar com tudo isso.
Eu também não sei. O bife esfriou, a comida não está mais na mesa, e, aparentemente, a ideia não está mais na cabeça. Me perdi na introdução do texto. Mas o que não perdi foi a vontade de escrever.
Ando numa boa fase, sabe?!
Achei uma frequência interessante e é ela quem está embalando meus passos.
Os sonhos estão tomando forma, consistência. As palavras, antes perdidas, ganharam corpo e se tornaram contrato. Foram planos, reuniões, parcerias, decisões. Três mãos que assinaram a instituição de um sonho comum. E logo depois, duas mentes que trabalharam na construção de uma mesma ambição. Sonhos que se sonham junto viram realidade.
Mas é preciso dar uma pausa nos sonhos bons. Manter o foco; porque não foi para falar das novas alegrias que eu me sentei aqui. Um pouco de pessimismo nesta xícara, por favor, porque agora eu vou fazer de conta que me chateei.
Ainda é hora do almoço, enganei a fome com café, e o bife antes suculento eu engoli meio a contragosto.
Ontem escrevi sobre fidelidade, contei um caso aleatório qualquer. Vocês ficariam surpresos de saber que a história relatada não tinha elementos reais. Gaiman costuma dizer que qualquer história que retrata a realidade é assim: fictícia do começo ao fim. E hoje abri meu email e havia um comentário dela - anônimo, sem noção. Ela me acusa de falar dela, de contar sua história.
Vibrei de alegria por saber que, magicamente, um elemento da minha imaginação, um personagem criado por mim, ganhou vida e se manifestou. Imagine se todos os meus outros exemplos resolvem se materializar? Se todas as pessoas e todas as relações sobre as quais eu já falei e publiquei, resolvem me escrever? Poderia povoar um mundo inteiro. Mas gostaria que eles me avisassem, para que eu pudesse mudar alguns elementos nas suas trajetórias. No fundo, vivo uma certa frustração: com tantos bons escritores por aí, com tantos bons personagens, porque o universo deu vida justo a minha pior criação? Pesadelos, mesmo sozinhos, podem virar realidade também.
Um motivo pra ficar.
Será que você vai ficar quando a rotina chegar?
Será que há prazer quando não há mais posições pra inventar?
Será que estará aqui quando vier o frio e o calor passar?
São tantas dúvidas e nenhuma resposta permanente para dar.
Estamos mesmo fadados a não responder e a não questionar?
O medo precisará sempre nos acompanhar?
Quantas lágrimas mais você agüentará chorar?
Até quando tudo será tão leve para carregar?
Será que você agüenta até o próximo mês acabar?
Será que fica pra sempre, sem eu tentar te obrigar?
Será que me abraça toda vez que eu te beijar?
E enquanto abraçar, vai mesmo fazer por gostar?
São tantas dúvidas e ainda nenhum resposta ao perguntar.
Tentando dormir quando mal consigo respirar,
Tentando esquecer quando tudo que faço é lembrar.
Pensando em partir quando tudo o que quero é te cuidar.
Será que se eu pedir, você vai voltar?
Será que fica sem eu precisar falar?
Será que ama enquanto diz nem querer se apaixonar?
Se eu pedir, e se só o amor servir como razão, você vai ficar?
Pensando em você
Eu sempre te pergunto sobre o que você está pensando. Você ri; às vezes responde, às vezes não. Eu finjo ficar brava pela falta de respostas, mas te dou um beijo estalado no canto do rosto e sorrio pela sua falta de atenção, torcendo para que você não pergunte sobre o que estou pensando também. Se você acha que eu falo demais, imagine se pudesse ler ou ouvir meus pensamentos... Porque eles nunca param. Eu sempre penso muito sobre muitas coisas - e, embora eu ache e diga que estou pensado em nada, sei que em boa parte do tempo estou pensando em você.
Então eu olho para cima e vejo sua barba rala, sua boca parada em um sorriso quase tímido, e seus olhos me encarando. Seus olhos sempre estão me encarando, e eu sinto como se eles pudessem ver através de mim.
Desvio o olhar pensando que com isso poderei desviar meus pensamentos de você. Mas não posso. Sei que você me olhando e continua me descobrindo... e sei também que de você eu não quero me esconder.
Então eu te olho de volta... mas só por alguns segundos. Acho que tenho medo de te olhar por tempo suficiente pra você ver a bagunça que às vezes se acumula aqui dentro de mim. E sorrio. Eu sempre sorrio quando estou nos seus braços. E meus pensamentos, que naturalmente já estão em você, se convergem em sentimentos gostosos de sentir.
Me arrepio. Te olho de volta e você continua me encarando. E como em um passe de mágica todos os meus pensamentos saem de mim e parecem pousar em você.
Se meus olhos pudessem te falar algo, eles falariam sobre o quanto eu penso em você, no seu sorriso e no seu olhar. Eles falariam que eu gosto das suas mãos, das suas costas e do seu rosto - com ou sem barba. Se meus olhos pudessem falar algo, eles falariam sobre amor, sobre paixão, sobre tesão. Falariam sobre nós dois e sobre o quanto eu gosto de você, o quanto eu gosto de tudo o que já construímos e que gosto do que ainda podemos construir. Se meus olhos falassem, eles falariam apenas sobre você e sobre o bem que você desperta em mim.
Mas meus olhos não falam, e meus pensamentos correm rápidos demais. Quando pisco, já te deixei mil sentimentos e você continua a me encarar. Eu sorrio. Poderia tentar te dizer, poderia tentar te escrever... mas ainda assim não o faria rápido o suficiente para mostrar tudo o que quero na velocidade que deveria. Eu suspiro e, em pensamento, peço para que você receba todos os meus pensamentos, ainda que eu os comunique em silêncio, apenas pelo meu olhar.
Então eu olho para cima e vejo sua barba rala, sua boca parada em um sorriso quase tímido, e seus olhos me encarando. Seus olhos sempre estão me encarando, e eu sinto como se eles pudessem ver através de mim.
Desvio o olhar pensando que com isso poderei desviar meus pensamentos de você. Mas não posso. Sei que você me olhando e continua me descobrindo... e sei também que de você eu não quero me esconder.
Então eu te olho de volta... mas só por alguns segundos. Acho que tenho medo de te olhar por tempo suficiente pra você ver a bagunça que às vezes se acumula aqui dentro de mim. E sorrio. Eu sempre sorrio quando estou nos seus braços. E meus pensamentos, que naturalmente já estão em você, se convergem em sentimentos gostosos de sentir.
Me arrepio. Te olho de volta e você continua me encarando. E como em um passe de mágica todos os meus pensamentos saem de mim e parecem pousar em você.
Se meus olhos pudessem te falar algo, eles falariam sobre o quanto eu penso em você, no seu sorriso e no seu olhar. Eles falariam que eu gosto das suas mãos, das suas costas e do seu rosto - com ou sem barba. Se meus olhos pudessem falar algo, eles falariam sobre amor, sobre paixão, sobre tesão. Falariam sobre nós dois e sobre o quanto eu gosto de você, o quanto eu gosto de tudo o que já construímos e que gosto do que ainda podemos construir. Se meus olhos falassem, eles falariam apenas sobre você e sobre o bem que você desperta em mim.
Mas meus olhos não falam, e meus pensamentos correm rápidos demais. Quando pisco, já te deixei mil sentimentos e você continua a me encarar. Eu sorrio. Poderia tentar te dizer, poderia tentar te escrever... mas ainda assim não o faria rápido o suficiente para mostrar tudo o que quero na velocidade que deveria. Eu suspiro e, em pensamento, peço para que você receba todos os meus pensamentos, ainda que eu os comunique em silêncio, apenas pelo meu olhar.
Fogo!
A casa em chamas, e os dois ali sentados no meio-fio vendo tudo queimar. A fumaça subia e sujava o céu, as
lágrimas desciam e sujavam o rosto. Ela o abraçou. Ele se entregou ao abraço e
soluçou. A casa em chamas, e os dois ali sentados no meio-fio e agarrando-se
um ao outro - porque agora eles eram tudo o que restava.
A casa queimou até acabar. Bombeiros
chegaram, atrasados, e saíram para atender outras ocorrências logo depois.
Vizinhos chegaram, curiosos, e voltaram para suas casas confortáveis e inteiras
logo depois. E só os dois permaneceram ali sentados no meio-fio, vendo a vida
queimar diante dos olhos cansados de tanto choro.
Ela queria poder dizer a ele que
tudo ficaria bem; ele queria poder dizer a ela que aquilo era só um sonho de
uma tarde quente. Afinal, na casa dela os dois dormiam abraçados, calorosos, quando
receberam a notícia do incêndio. Correram pelas ruas até chegar à casa dele, ouviram
o estalo das paredes enquanto o fogo subia, e até se arriscaram a tentar
arrombar portas e janelas para tentar entrar e salvar algumas coisas. E um se
agarrava ao outro, sem poder fazer coisa alguma além de esperar o fogo consumir
tudo o que estava ao seu alcance.
O fogo queima, ela constatou. O
fogo mata, ele completou. As horas passaram e a noite caiu e aquele meio-fio
continuou sendo o abrigo dos dois. Enquanto isso, o fogo diminuía e o que antes
era uma casa se mostrou uma estrutura negra e descaída, de cinzas, sem vida.
Ela fechou os olhos e fez uma prece. Ele fechou os olhos e adormeceu. Os olhos
dos dois ardiam, cheios de fumaça e de lágrimas. Ela passou as mãos pelos cabelos
oleosos dele. Ele se aninhou no colo dela e suspirou pesado. As mãos dos dois
se apertaram. Ela pediu, num sussurro, para que tudo aquilo não passasse de um
sonho ruim. E ele pediu, em sonho, para que ela ainda estivesse lá quando ele
acordasse. Os pensamentos se encontraram e combinaram nunca mais se
separar – nunca antes eles haviam precisado tanto um do outro. Agora eles eram tudo o que restava.
Sobre escrever.
Escrever é uma fuga... mas é
uma dessas em que você sai correndo sem pensar, não arruma as malas, e quando chega na rodoviária se lembra de ao menos deixar aquele clássico bilhete de despedida. Mas não tem papel ou caneta e então manda uma mensagem de texto, antes de excluir pra sempre aquele número do seu celular.
Escrever é uma daquelas fugas em que você apenas vai, mas deixa pelo caminho um punhado
de fotos, palavras e saudades bonitas. O bom é não pensar, e deixar as coisas simplesmente acontecerem conforme a vontade pedir. Porque se você parar e olhar pra trás, ou baixar a cabeça e olhar pro pedaço de papel rabiscado, verá que não tem motivo para ir, do mesmo jeito que geralmente não existe motivo para escrever. É só uma fuga.
Dos contos e poemas que
escrevo, acho que não tenho um preferido. Eu sempre tenho tanto a dizer – e ele
ri porque eu nunca consigo encará-lo em silêncio. E às vezes eu quero falar
tanto, que o único jeito é pegar o papel e a caneta e escrever. Por isso a maior
parte das histórias que escrevo acaba sendo verídica. Bom, mais ou menos... O
fato é que muitas dessas histórias aconteceram comigo, mas isso não quer dizer
que elas sejam mesmo reais.
Intimidade
Intimidade: s.f. Caráter do que é íntimo, secreto. Relação íntima ou de familiaridade.
A intimidade é uma possibilidade, e por isso acaba por se constituir numa busca por sentido. Ter intimidade com alguém é sentir-se em casa com essa pessoa. E “sentir-se em casa” significa sentir-se seguro para ser quem é, sem medo. Mas como buscar sentido no outro, se na maioria das vezes perdemos o sentido de nós mesmos?
Intimidade é habilidade, é construção de sentido, é profundidade. Mas como viver a intimidade, se somos forçados e aparentemente queremos viver sempre nas beiradas, na superfície do efêmero?
Só há fluxo, só há movimento e velocidade que arrastam tudo o que veem pela frente. Não possuímos casa, não podemos nos segurar, apenas nos deixamos levar por uma correnteza de inconstâncias e de inconsistências. Somos todos autores, e também atores e personagens. Como num ensaio sem direção, cada um pode ser o que quiser, ao mesmo tempo em que pode querer ser coisa nenhuma. E pode-se querer tudo, ou nada, ou uma coisa a cada instante, até que aquele instante se acabe. Vivemos como descartáveis, e por isso julgamos não precisar nos fixar nem nos identificar, porque tudo está à disposição.
A memória é digital. O sorriso, mecânico. E vou parar por aqui porque dói descrever a automação e a superficialidade dos relacionamentos humanos.
É mais fácil desabafar ou tentar retratar-se com um desconhecido, assinar um cheque no final da sessão, e não precisar voltar se por acaso o Zé disser algo desagradável. Afinal, é só um zé, que nos depoimentos do Orkut eu ainda chamo de amigo, mas que por acaso eu encontrei e que estava a disposição para me ouvir. Mas só naquele instante. Não precisarei ouvi-lo depois, nem dividir as minhas angústias e sentimentos mais profundos. Posso ir embora, sem traumas, quando eu quiser.
Porque é mais fácil ser superficial.
Tão ocupados em atingir as metas e os resultados que esquecem-se de dedicar tempo, dinheiro, paciência e o que mais for necessário para construir relações humanas duradouras e profundas. Fazemos dos outros objetos descartáveis, porque nós mesmos não nos encontramos, não sabemos o que queremos, e dizemos querer tudo, e buscamos que outros nos encontrem, nos devolvam para nós e nos deixem, e sejam deixados. É preciso sempre seguir em frente, e quem resolve ficar é sempre deixado para trás.
Vivemos em rios de inconsistências e de falta de sentido, e ninguém quer buscar o que é profundo, porque tem medo de se afogar.
Intimidade é habilidade, é construção de sentido, é profundidade. Mas como viver a intimidade, se somos forçados e aparentemente queremos viver sempre nas beiradas, na superfície do efêmero?
Só há fluxo, só há movimento e velocidade que arrastam tudo o que veem pela frente. Não possuímos casa, não podemos nos segurar, apenas nos deixamos levar por uma correnteza de inconstâncias e de inconsistências. Somos todos autores, e também atores e personagens. Como num ensaio sem direção, cada um pode ser o que quiser, ao mesmo tempo em que pode querer ser coisa nenhuma. E pode-se querer tudo, ou nada, ou uma coisa a cada instante, até que aquele instante se acabe. Vivemos como descartáveis, e por isso julgamos não precisar nos fixar nem nos identificar, porque tudo está à disposição.
A memória é digital. O sorriso, mecânico. E vou parar por aqui porque dói descrever a automação e a superficialidade dos relacionamentos humanos.
É mais fácil desabafar ou tentar retratar-se com um desconhecido, assinar um cheque no final da sessão, e não precisar voltar se por acaso o Zé disser algo desagradável. Afinal, é só um zé, que nos depoimentos do Orkut eu ainda chamo de amigo, mas que por acaso eu encontrei e que estava a disposição para me ouvir. Mas só naquele instante. Não precisarei ouvi-lo depois, nem dividir as minhas angústias e sentimentos mais profundos. Posso ir embora, sem traumas, quando eu quiser.
Porque é mais fácil ser superficial.
Tão ocupados em atingir as metas e os resultados que esquecem-se de dedicar tempo, dinheiro, paciência e o que mais for necessário para construir relações humanas duradouras e profundas. Fazemos dos outros objetos descartáveis, porque nós mesmos não nos encontramos, não sabemos o que queremos, e dizemos querer tudo, e buscamos que outros nos encontrem, nos devolvam para nós e nos deixem, e sejam deixados. É preciso sempre seguir em frente, e quem resolve ficar é sempre deixado para trás.
Vivemos em rios de inconsistências e de falta de sentido, e ninguém quer buscar o que é profundo, porque tem medo de se afogar.
Texto originalmente publicado em: https://www.facebook.com/cacpaes/posts/675862345841388
Sobre ela...
Acho que foi Veríssimo quem disse que: "um homem fazendo a barba na frente do espelho está num momento crucial da sua existência". E assim eu encaro minha imagem enquanto seguro a gilete, pensando sobre as opções. A barba não é apenas um amontoado de pelo que esconde parte do meu rosto... ela é parte de mim. E é também um ritual de passagem: quando um garoto apresenta seus primeiros pelos, mostra ao mundo que está se tornando um adulto. E isso fica implícito em todos os gestos e todas as escolhas que ele fizer depois.
Perdido nesses pensamentos, me lembro de quando reparei nEla pela primeira vez: estávamos em uma festa e Ela transpirava liberdade, e quando eu me aproximei ela voou pra longe de mim. E me sorriu. E cada vez que Ela fugia Ela me sorria ainda mais. Me encantei. Tão menina, tão mulher... E eu apenas eu. Quando me aproximei no fim da noite, trocamos alguns passos pela pista e eu descobri que era com Ela que eu queria dançar pra sempre. Mas Ela só me sorriu, e sem corresponder ao meu desejo, se despediu me chamando de “menino”, com quem diz que eu ainda tinha muito para aprender e viver. Mas eu queria viver com Ela... Depois daquele dia, deixei a barba crescer.
E essa barba não é um monte de pelos que eu carrego no rosto... é uma parte de mim. Como que para mostrar pra Ela que eu não sou mais tão menino, que eu posso ser um homem pra Ela também. Que Ela pode aprender comigo tanto quanto Ela, mesmo sem saber, me ensinou. E foi quando Ela voou pra perto de mim.
E olhou nos meus olhos, acariciou meu rosto e meu corpo, se aninhou nos meus braços e dormiu... Parecia um passarinho quando encontra um ninho pra pousar. Ela pousou em mim.
Ela ficou e a barba ficou com Ela, pra Ela. Acho que Ela nem sabe, mas essa barba só cresceu aqui porque Ela mesma só fazia crescer dentro de mim; porque algo nEla me pedia, mesmo sem voz, para que eu a deixasse lá, para que eu não fosse só um menino, mas um homem com quem Ela gostava de estar. E eu quis crescer e quis aprender com Ela. E quis ensinar-lhe tantas coisas também...!
Vez ou outra eu acordava de madrugada e encontrava os cabelos dEla caídos pelo meu peito, sua respiração tranquila como de quem encontra um porto seguro. E meu coração parecia querer explodir, explodir na calmaria que Ela representava e também no amor e na liberdade que Ela transpirava quando estava em cima de mim.
Mas Ela é um passarinho, e meu ninho talvez não fosse tão seguro assim... Eu ainda sou um menino. E Ela voou de novo, sempre sorrindo, pra longe de mim.
Como bem disse Veríssimo, fazer a barba na frente do espelho nos traz algumas reflexões sobre a existência. A minha, sem Ela, ainda é um pouco dolorosa de se encarar. É como se faltasse algo em mim. E faltava Ela. E era Ela quem me doía. E assim eu encaro minha imagem enquanto seguro a gilete, pensando em como eu posso atingi-la, e dessa vez me sinto mais seguro quanto às opções. Resolvo retirar esses pelos que me cobrem parcialmente o rosto. Mas é dEla que eu quero me livrar.
Perdido nesses pensamentos, me lembro de quando reparei nEla pela primeira vez: estávamos em uma festa e Ela transpirava liberdade, e quando eu me aproximei ela voou pra longe de mim. E me sorriu. E cada vez que Ela fugia Ela me sorria ainda mais. Me encantei. Tão menina, tão mulher... E eu apenas eu. Quando me aproximei no fim da noite, trocamos alguns passos pela pista e eu descobri que era com Ela que eu queria dançar pra sempre. Mas Ela só me sorriu, e sem corresponder ao meu desejo, se despediu me chamando de “menino”, com quem diz que eu ainda tinha muito para aprender e viver. Mas eu queria viver com Ela... Depois daquele dia, deixei a barba crescer.
E essa barba não é um monte de pelos que eu carrego no rosto... é uma parte de mim. Como que para mostrar pra Ela que eu não sou mais tão menino, que eu posso ser um homem pra Ela também. Que Ela pode aprender comigo tanto quanto Ela, mesmo sem saber, me ensinou. E foi quando Ela voou pra perto de mim.
E olhou nos meus olhos, acariciou meu rosto e meu corpo, se aninhou nos meus braços e dormiu... Parecia um passarinho quando encontra um ninho pra pousar. Ela pousou em mim.
Ela ficou e a barba ficou com Ela, pra Ela. Acho que Ela nem sabe, mas essa barba só cresceu aqui porque Ela mesma só fazia crescer dentro de mim; porque algo nEla me pedia, mesmo sem voz, para que eu a deixasse lá, para que eu não fosse só um menino, mas um homem com quem Ela gostava de estar. E eu quis crescer e quis aprender com Ela. E quis ensinar-lhe tantas coisas também...!
Vez ou outra eu acordava de madrugada e encontrava os cabelos dEla caídos pelo meu peito, sua respiração tranquila como de quem encontra um porto seguro. E meu coração parecia querer explodir, explodir na calmaria que Ela representava e também no amor e na liberdade que Ela transpirava quando estava em cima de mim.
Mas Ela é um passarinho, e meu ninho talvez não fosse tão seguro assim... Eu ainda sou um menino. E Ela voou de novo, sempre sorrindo, pra longe de mim.
Como bem disse Veríssimo, fazer a barba na frente do espelho nos traz algumas reflexões sobre a existência. A minha, sem Ela, ainda é um pouco dolorosa de se encarar. É como se faltasse algo em mim. E faltava Ela. E era Ela quem me doía. E assim eu encaro minha imagem enquanto seguro a gilete, pensando em como eu posso atingi-la, e dessa vez me sinto mais seguro quanto às opções. Resolvo retirar esses pelos que me cobrem parcialmente o rosto. Mas é dEla que eu quero me livrar.
Fique só até amanhã...
Fique. Não me dê desculpas, não faça promessas.
Fique só por hoje, sem adiar.
Já chega dessa história de arrumar pretextos, de ser difícil,
de [mesmo sem querer] tentar se afastar.
Apenas fique.
Amanhã cedo a gente resolve os detalhes.
Quando eu acordar, olhando pra você, a gente conversa
e aí decide se é isso mesmo que a gente quer.
Mas fique só por hoje,
não adia o querer por medo ou outra desculpa qualquer.
Porque o que importa é o agora. E só.
É bobeira achar que agora não dá,
que é preciso esperar outros sóis...
Não precisa arrumar a casa, eu não ocupo muito espaço
e me acostumo à sua bagunça.
Hoje eu só preciso de um cantinho debaixo dos seus lençóis.
Fique.
Sem desculpas, sem promessas,
e o resto a gente resolve ao acordar.
As justificativas podem nos esperar dormir.
Porque eu te quero agora,
e só por agora não vou ficar esperando o tempo passar.
Mas quando amanhecer, se você quiser, pode ir.
Ande por onde você precisar andar.
E sonhe o que você precisar sonhar.
E mande notícias de vez em quando
pra eu pelo menos saber que você está bem,
pra eu saber que você está pensando em mim
ainda que esteja ficando em outro lugar.
Pode ficar.
Só não me deixe morrer de saudades,
só não me deixe viver de vontades.
Pode rodar o mundo que eu vou voar também...
E no fim, pode voltar.
E pode ficar, e se estabelecer.
Se não, quando um outro dia amanhecer,
espero que a gente se encontre e admita
que tudo o que faltava
era a gente ter decidido se encontrar
e assim permanecer.
Vez ou outra, é amor.
Eu não valho nada, você sabe. Nem vou tentar mentir pra
você. Você sabe que a saudade sobre a qual eu escrevo nem sempre é a saudade que
eu sinto de você. Mas se eu te falar, olhando nos seus olhos, que estava com
saudade, é porque realmente estava. E pelo menos nesse momento é saudade de
você, só de você. No restante do tempo, sabemos que meu coração é bem grande e tem
muito espaço para amar... Por isso vez ou outra tem espaço para vários abraços e vários
sorrisos. Não me leve a mal. Eu tenho uma boa memória e consigo me lembrar de
tudo, tudo. Eu sou assim, e acho que sempre fui, mesmo quando fingia não ser.
O que eu posso fazer? Essas cartas que eu escrevo são para
você, mas também enviei cartas para outros, e também lhes falei de amor. O amor é sempre bonito. Mas
nem por isso meu amor vale menos do que antes. Porque isso não quer dizer que eu
não amo você. Eu só... acho que fiz uma bagunça muito grande, e no meio de tudo
isso eu coloquei você. E nem me atrevo a me desculpar.
Eu não valho nada, você sabe e sempre soube. Mas prometo que
não vou mentir pra você. Mesmo que não seja sempre sobre você, e que meu coração
esteja sempre voando por aí. Eu te chamo pra voar comigo... sei que teremos um voo
lindo. Mas me deixe pousar vez ou outra, me deixe conhecer novas paisagens, novas pessoas,
novos sorrisos. Prometo que vou levar sempre o teu olhar, prometo que ele vai
se destacar entre tantos outros.
Eu não vou mentir pra você. Seja especial, seja você. E não
seja meu. Mas também não se distancie. Me dê um pouco de você, e eu prometo te
dar cada vez mais de mim. Vê se não fica sem mandar notícias, vê se não foge de
mim.
Sei que não é sempre sobre você. Mas eu não vou mentir
quando te falar de amor e de toda a saudade que, vez ou outra, eu sinto de
você.
Algumas partes de você.
“Me deu saudade, só
isso. De repente, me deu tanta saudade...” – Caio Fernando Abreu
Saudade é uma coisa estranha. Você foi embora, tirada de mim
por alguém que sequer a conhecia. Tirada de mim sem nem poder dizer que não
queria. Suas últimas palavras foram um choro de dor. Minhas últimas palavras
para você, também. E você já nem podia ouvi-las. Você ainda não pode me ouvir,
mas mesmo assim eu choro. Existem milhões de possibilidades e de coisas que
você poderia estar fazendo, mas você não esta. Você só estava no lugar errado,
e eles também. Eles nem te perguntaram se você não poderia ser a pessoa
errada. E você era.
Eu ganhei muitas coisas que eram suas. Coisas que você
sempre dizia, em vida, que só seriam minhas depois que você morresse. Eu não
achei que você falava tão sério. E hoje eu olho para suas coisas e sinto
saudade. Fico abrindo e fechando as portas dos móveis, esperando você entrar no
quarto, gritando para que eu não bagunce [mais] as coisas. Ou então esperando
que você apareça na cozinha, enquanto eu tempero a carne, segurando uma panelinha
velha cheia de legumes nada apetitosos e insistindo para que eu coma com você. Se fosse pra te ter de volta, até salada eu comeria.
Eu ganhei sua camiseta com o desenho dos vegetais. Ganhei seu quarto da barbie feito em madeira. Ganhei seu porta-joias, que de joia mesmo tinha só o seu anel de formatura. Ganhei ele também.
E esses dias, andando na rua, fui parada por duas senhoras que me perguntaram se eu era sua filha. Eu mexi no meu cabelo e pensei que ele deveria estar muito bagunçado, pois esse era o único motivo para me assemelharem a você. Mas não estava. Então eu sorri e respondi que não, mas que você era tão importante quanto uma mãe para mim. Eu virei as costas e chorei, mas rápido o suficiente para ninguém ver. Não porque quero evitar a dor, mas porque sei que você, mesmo aí do céu, não ia querer me ver chorar ao ser comparada com você. Você é linda! E ser comparada com você me faz ser linda também. E me enche de alegria e orgulho. Penso que você deve estar um pouco dentro de mim.
Eu ganhei sua camiseta com o desenho dos vegetais. Ganhei seu quarto da barbie feito em madeira. Ganhei seu porta-joias, que de joia mesmo tinha só o seu anel de formatura. Ganhei ele também.
E esses dias, andando na rua, fui parada por duas senhoras que me perguntaram se eu era sua filha. Eu mexi no meu cabelo e pensei que ele deveria estar muito bagunçado, pois esse era o único motivo para me assemelharem a você. Mas não estava. Então eu sorri e respondi que não, mas que você era tão importante quanto uma mãe para mim. Eu virei as costas e chorei, mas rápido o suficiente para ninguém ver. Não porque quero evitar a dor, mas porque sei que você, mesmo aí do céu, não ia querer me ver chorar ao ser comparada com você. Você é linda! E ser comparada com você me faz ser linda também. E me enche de alegria e orgulho. Penso que você deve estar um pouco dentro de mim.
Quando as pessoas vão embora, elas sempre deixam algumas
partes de si pelo caminho.
Isso é sobre ficar ♥
Me prende no teu abraço e me
beija até eu esquecer de ir embora. Eu sempre digo que preciso ir e você, com
um só beijo, me convence a ficar. E sempre rompe a barreira de bobagens que eu falo, dizendo que é melhor a gente não se envolver. Você sempre passa dos limites. E quando
percebo já estou entregue aos seus braços, torcendo para que você não me solte
mais. Eu fico.
Seu beijo me acalma, e eu
sempre sorrio boba quando nossos lábios se separam. Ou quando vejo seu olhar
bobo me comendo com os olhos. Você me abraça e me pede para ficar, e eu não sei
como poderia dizer “não” pra você. Eu sempre fico.
E a gente conversa, às vezes até em silêncio, e a paz que você me traz me faz relaxar. Eu sempre fico vulnerável nos teus braços. Justo eu, que quero sempre o controle, a liberdade, a distância... de você, não consigo me afastar. Eu simplesmente fico.
A madrugada passa e eu estou ali, dormindo segura nos seus braços. Acho que te desperto com meus movimentos inquietos, e quando abro os olhos, seus olhos estão abertos me encarando. Já te falei o quanto gosto dos seus olhos? Eu sempre acho que eles estão sorrindo para mim, me pedindo pra ficar. E eu reclamo que já passou do horário, mas fico.
Me invade com a tua paz, com
a tua liberdade, com o teu carinho e o teu cuidado. Me prende nos teus braços
até eu dormir e esquecer de ir embora. Ou dorme nos meus braços e, sonolento,
diz aquelas frases desconexas que me fazem rir. Mesmo com sono, você me
desperta tantas coisas boas que eu nem posso descrever, pra não correr o risco
de diminuí-las. Você é lindo. E desperta em mim o que existe de mais bonito
também. Eu não quero ter que ir embora. Eu sempre reluto, mas no fundo nós dois
sabemos que eu quero ficar.
O que significa sentir sua falta.
Oi. Eu sei que não estamos nos vendo (há tanto tempo) e que eu prometi não mais te procurar, mas pensei em você hoje cedo, e queria dizer que sinto sua falta. Queria que você soubesse que não é como se eu me arrependesse do que aconteceu, ou como se quisesse ter acabado diferente, muito menos que eu gostaria de te ver. Quando eu digo que sinto sua falta, é simplesmente porque sinto sua falta, e é isso que significa.
Você, uma pessoa que eu julgava conhecer tão bem, me parece mais uma pessoa estranha. E isso significa que (há muito tempo) eu já consigo passar alguns dias sem pensar em você. É como se (por algum tempo), eu simplesmente te esquecesse. E isso parece tão fácil. E parece tão bom.
Mas aí eu te lembro de novo. Acho uma carta, uma foto, uma música que eu tenho certeza que você acharia ruim e mais tarde me pediria para escutar. E então eu volto a sentir o peso de tudo o que foi perdido.
Não é como se eu me arrependesse, como se eu quisesse voltar (no tempo) e te pedir para ficar. Eu não me arrependo, e entendo que tivemos muitas razões para terminar. Nós nunca precisamos de razão para nada. E você ainda reclama de que eu quero ter sempre a razão. Mas, no começo, as coisas simplesmente aconteceram, até a razão nos encontrar: nós não tínhamos interesses em comum, não gostávamos das mesmas músicas, da mesma ciência e nem das mesmas pessoas. Não possuímos os mesmos objetivos, e parecíamos estar andando sozinhos. Na verdade, não havia razão alguma para que nos amássemos, mas ainda assim (por muito tempo) insistimos que sim.
Mas quando as razões vieram, vieram em bando - essas covardes. E até hoje as razões não cansam de chegar. Ao mesmo tempo, isso é bom. Não é como se eu precisasse te dizer adeus, mas também não é como se eu quisesse te ver voltar.
Eu só queria dizer que sinto sua falta. Como senti falta de outros, antes de você; e sentirei falta mesmo depois que outros vierem. As pessoas nunca se vão por completo. E você continua aqui, embora eu ainda te esqueça vez ou outra. Há sempre algo ausente que atormenta. E hoje você é o que existe de mais ausente em mim.
Eu sinto sua falta. E não porque quero voltar atrás ou mudar o que eu fiz. Apenas porque sei que somos tão diferentes, desinteressantes, e com objetivos tão distintos, que acho até engraçado algum dia termos conseguido nos apaixonar.
Mas não quero me delongar (por tanto tempo). Só quero dizer que espero que você esteja bem, espero que siga seu caminho, que conheça alguém... E ao mesmo tempo, espero que se lembre de mim, que se lembre da nossa falta de razão, das nossas promessas, das nossas ideias. E espero que não mude de ideia tão rápido.
Espero que sinta falta de mim, embora, deste momento em diante, eu veja razões para não sentir falta de você.
Você, uma pessoa que eu julgava conhecer tão bem, me parece mais uma pessoa estranha. E isso significa que (há muito tempo) eu já consigo passar alguns dias sem pensar em você. É como se (por algum tempo), eu simplesmente te esquecesse. E isso parece tão fácil. E parece tão bom.
Mas aí eu te lembro de novo. Acho uma carta, uma foto, uma música que eu tenho certeza que você acharia ruim e mais tarde me pediria para escutar. E então eu volto a sentir o peso de tudo o que foi perdido.
Não é como se eu me arrependesse, como se eu quisesse voltar (no tempo) e te pedir para ficar. Eu não me arrependo, e entendo que tivemos muitas razões para terminar. Nós nunca precisamos de razão para nada. E você ainda reclama de que eu quero ter sempre a razão. Mas, no começo, as coisas simplesmente aconteceram, até a razão nos encontrar: nós não tínhamos interesses em comum, não gostávamos das mesmas músicas, da mesma ciência e nem das mesmas pessoas. Não possuímos os mesmos objetivos, e parecíamos estar andando sozinhos. Na verdade, não havia razão alguma para que nos amássemos, mas ainda assim (por muito tempo) insistimos que sim.
Mas quando as razões vieram, vieram em bando - essas covardes. E até hoje as razões não cansam de chegar. Ao mesmo tempo, isso é bom. Não é como se eu precisasse te dizer adeus, mas também não é como se eu quisesse te ver voltar.
Eu só queria dizer que sinto sua falta. Como senti falta de outros, antes de você; e sentirei falta mesmo depois que outros vierem. As pessoas nunca se vão por completo. E você continua aqui, embora eu ainda te esqueça vez ou outra. Há sempre algo ausente que atormenta. E hoje você é o que existe de mais ausente em mim.
Eu sinto sua falta. E não porque quero voltar atrás ou mudar o que eu fiz. Apenas porque sei que somos tão diferentes, desinteressantes, e com objetivos tão distintos, que acho até engraçado algum dia termos conseguido nos apaixonar.
Mas não quero me delongar (por tanto tempo). Só quero dizer que espero que você esteja bem, espero que siga seu caminho, que conheça alguém... E ao mesmo tempo, espero que se lembre de mim, que se lembre da nossa falta de razão, das nossas promessas, das nossas ideias. E espero que não mude de ideia tão rápido.
Espero que sinta falta de mim, embora, deste momento em diante, eu veja razões para não sentir falta de você.
Tic Tac Tédio
Tic Tac.
A sala de espera vazia, as janelas ainda fechadas, e nem sinto o cheiro de café no ar. O relógio perto do bebedouro sumiu. Bato as mãos no bolso e constato ter esquecido o celular. Suspiro. Bebo um copo d'água, ando pela saleta de 6m², mas sento assim que bato a canela numa das cadeiras vazias. Me irrito. Sento e percebo estar sem bolsa. Percebo que pela primeira vez deixei em casa tanto o livro quanto o computador, e justo no dia que esqueci o celular. Constato também que não tenho como ver o tempo passar, e que não tenho o que fazer até que o tempo passe.
Tic Tac.
Vou até minha sala, e lá fico (por quanto tempo?), com a luz apagada e a porta entreaberta, adaptando-me com a disposição das poltronas no escuro. Se esta fosse só a minha sala, com certeza trocaria essas poltronas que sequer no escuro parecem aconchegantes. Acendo a luz: há dois relógios aqui.
Tic Tac.
Tic Tac.
Cada um marcando um horário, com alguns minutos de diferença. Bato as mãos no bolso do jaleco e constato que não tenho um celular ou relógio para conferir. Ainda não tenho o que fazer com o tempo, mas pelo menos agora ele começou a passar.
Debruço na mesa. Rabisco a lateral da folha, escrevo uma canção de que me recordei neste instante. Suspiro. Que música triste. Pelo menos me fez perceber o tempo passar. Pena que não foi necessariamente este o tempo que passou. Quanto tempo faz desde o nosso último instante? Guardo a folha na pasta. Mexo nos anéis e verifico o esmalte das unhas, num segundo que pareceu uma eternidade. O ponteiro parece nem ter se mexido.
Vejo corpos no corredor, vozes distantes, uma risada. Penso em te mandar um "Olá", mas bato as mãos no bolso e constato que esqueci o celular. Só não pense que esqueci você. Meu estômago ronca de fome e me traz de volta à essa realidade. Volto a perceber o som do relógio e percebo que é quase hora de ir, que muitos minutos se passaram enquanto eu pensava em você.
Que grande perda de tempo.
Tic Tac.
A sala de espera vazia, as janelas ainda fechadas, e nem sinto o cheiro de café no ar. O relógio perto do bebedouro sumiu. Bato as mãos no bolso e constato ter esquecido o celular. Suspiro. Bebo um copo d'água, ando pela saleta de 6m², mas sento assim que bato a canela numa das cadeiras vazias. Me irrito. Sento e percebo estar sem bolsa. Percebo que pela primeira vez deixei em casa tanto o livro quanto o computador, e justo no dia que esqueci o celular. Constato também que não tenho como ver o tempo passar, e que não tenho o que fazer até que o tempo passe.
Tic Tac.
Vou até minha sala, e lá fico (por quanto tempo?), com a luz apagada e a porta entreaberta, adaptando-me com a disposição das poltronas no escuro. Se esta fosse só a minha sala, com certeza trocaria essas poltronas que sequer no escuro parecem aconchegantes. Acendo a luz: há dois relógios aqui.
Tic Tac.
Tic Tac.
Cada um marcando um horário, com alguns minutos de diferença. Bato as mãos no bolso do jaleco e constato que não tenho um celular ou relógio para conferir. Ainda não tenho o que fazer com o tempo, mas pelo menos agora ele começou a passar.
Debruço na mesa. Rabisco a lateral da folha, escrevo uma canção de que me recordei neste instante. Suspiro. Que música triste. Pelo menos me fez perceber o tempo passar. Pena que não foi necessariamente este o tempo que passou. Quanto tempo faz desde o nosso último instante? Guardo a folha na pasta. Mexo nos anéis e verifico o esmalte das unhas, num segundo que pareceu uma eternidade. O ponteiro parece nem ter se mexido.
Vejo corpos no corredor, vozes distantes, uma risada. Penso em te mandar um "Olá", mas bato as mãos no bolso e constato que esqueci o celular. Só não pense que esqueci você. Meu estômago ronca de fome e me traz de volta à essa realidade. Volto a perceber o som do relógio e percebo que é quase hora de ir, que muitos minutos se passaram enquanto eu pensava em você.
Que grande perda de tempo.
Tic Tac.
Desencontro.
Parece que ele sabe... Às vezes acho que ele pode mesmo sentir. E às vezes até acho que ele sente o mesmo que eu. E - malditas asas queimadas! - às vezes eu só queria poder voar para longe dele. Mas não. Autocontrole nunca foi uma característica a qual me dediquei.
- Oi - ele disse com sua voz baixa.
- Oi - me limitei a responder.
- Só liguei para saber se você estava bem...
- Eu estou. - e fugia das respostas quase tanto quanto fugia do contato. E não lhe faço perguntas. Sempre tenho medo das respostas, embora tudo o que eu quisesse era tê-lo deitado no meu divã, para então lhe arrancar todas as verdades.
- Ah, que bom. Queria dizer também que eu estava com saudades...
- Você sempre está, - respondi. - mas acho que isso nunca melhorou as coisas entre nós.
- Pare de me tratar assim... - sua voz era reticente e triste. De uns tempos para cá, sua voz sempre me soava triste. Mas talvez fosse só o meu coração meio fraco demais.
- Pararei - eu respondi. - É só você parar de me ligar. Ou ao menos tenha a decência de admitir o que você quer. Você quer voltar?
- Não. Eu quero conversar. Quero sentar no seu portão, segurar sua mão e te apertar forte. E te soltar apenas quando a realidade nos obrigar a acordar. - ele riu, triste. - Vamos sair?
Suspirei: Não posso...
- Não pode... ou não quer?
- Os dois.
- Tudo bem. Me desculpe. Não vou mais te ligar.
- Eu sei.
- Então... até semana que vem. - ele fala, triste. E eu solto uma risada triste ao ouvir a velha piada.
- Até. Se cuide. E volte para quem sabe devolver as minhas asas.
- Oi - ele disse com sua voz baixa.
- Oi - me limitei a responder.
- Só liguei para saber se você estava bem...
- Eu estou. - e fugia das respostas quase tanto quanto fugia do contato. E não lhe faço perguntas. Sempre tenho medo das respostas, embora tudo o que eu quisesse era tê-lo deitado no meu divã, para então lhe arrancar todas as verdades.
- Ah, que bom. Queria dizer também que eu estava com saudades...
- Você sempre está, - respondi. - mas acho que isso nunca melhorou as coisas entre nós.
- Pare de me tratar assim... - sua voz era reticente e triste. De uns tempos para cá, sua voz sempre me soava triste. Mas talvez fosse só o meu coração meio fraco demais.
- Pararei - eu respondi. - É só você parar de me ligar. Ou ao menos tenha a decência de admitir o que você quer. Você quer voltar?
- Não. Eu quero conversar. Quero sentar no seu portão, segurar sua mão e te apertar forte. E te soltar apenas quando a realidade nos obrigar a acordar. - ele riu, triste. - Vamos sair?
Suspirei: Não posso...
- Não pode... ou não quer?
- Os dois.
- Tudo bem. Me desculpe. Não vou mais te ligar.
- Eu sei.
- Então... até semana que vem. - ele fala, triste. E eu solto uma risada triste ao ouvir a velha piada.
- Até. Se cuide. E volte para quem sabe devolver as minhas asas.
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